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Realizada por: Elimar
Oliveira e Cezar Augusto
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Respondida por: Roosevelt
Stress
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TGZ:
Como foi formar uma banda de Rock'n Roll
em plenos anos 70 no Brasil, mais precisamente
em Belém do Pará, sendo vocês
a 1ª de Heavy no Brasil? |
Roosevelt:
Não tínhamos nenhuma referência
aqui no Brasil, em Belém...nem se fala.
Os poucos discos de rock que encontrávamos
nas lojas chegavam com anos de atraso. As
revistas quase nem chegavam, quando isso acontecia
ficavam surradas de tanto passarem de mão
em mão, emprestadas de um roqueiro
para outro. Entre os roqueiros, como eram
chamados uns pelos outros os caras que curtiam
rock, havia uma união impressionante,
era quase uma irmandade. Se alguém
te dissesse que lá na casa do c...
Havia um cara que tinha o mais recente álbum
do Sweet, por exemplo, tu pegavas alguns dos
teus melhores Lps e ias procurar a casa do
elemento, chegando lá tu perguntavas:
És tu que és roqueiro? Daí
rolava logo uma sessão de rock na velha
eletrola e uma sólida amizade se formava.
Foi desse jeito que quatro roqueiros que se
conheceram na escola resolveram que seria
legal tocar aquelas músicas e não
somente ouvi-las. Escolheram os instrumentos,
sem mesmo saber tocar nada, e começaram
a aprender enquanto se “batiam”
tentando tocar suas canções
prediletas nos ensaios de fim de semana, isso
aconteceu em 75. Naquela oportunidade nascia
o embrião da primeira banda de Heavy
do Brasil.
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TGZ:
Se hoje as dificuldades atrapalham e
até impedem alguma iniciativa como
esta, creio que há 30 atrás
era muito, mas muito mais difícil,
mas diga-nos, houve momentos em que vocês
pensaram em desistir? Deve ter havido também
claro, momentos em que vocês pensavam,
vamos até o fim, poderia citá-los? |
Roosevelt: Além da já mencionada
escassez de discos e revistas – vídeos...nem
pensar - , os instrumentos eram caríssimos,
alguns caras da banda tiveram dificuldades
em adquiri-los,todos nacionais, é lógico,
importados só contrabandeados do exterior.
Não havia nenhum profissionalismo,
desde as primeiras apresentações
em festinhas de aniversário e festivais
escolares toda a “produção”,
se é que se podia usar esse termo tão
profissional, era feita por nós. Desde
a confecção e afixação
de faixas e cartazes pelas ruas, pagamento
de licenças, venda de ingressos de
mão em mão, peregrinação
pelos jornais e rádios, montagem de
palco, cenário e o mais difícil:
encontrar na cidade um som (PA) pra fazer
a cobertura do show, pois a cada show realizado
era um som descartado. Logo após o
show tínhamos de desmontar tudo, mas,
éramos muito jovens e a felicidade
era tamanha que não percebíamos
a fadiga depois de tudo. Alguns teatros e
ginásios se opunham à realização
de shows de rock, ainda assim conseguimos
quebrar alguns tabus e os recordes de bilheterias
desses mesmos lugares. Apesar desses e uma
série de outros obstáculos típicos
de uma cidade provinciana como Belém
era, em nenhum momento pensamos em desistir,
levávamos tudo com muito bom humor
e a amizade crescente entre nós não
deixava que as adversidades interferissem
na nossa, até então, diversão
predileta. Mesmo quando paramos em 87, e mais
de uma década se passou, não
assumimos que seria o fim, em algum momento
mais oportuno voltaríamos aos palcos.
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TGZ:
O Stress gravou três discos, Stress
I de 1982 (independente), Flor Atômica
de 1985 (Polygram) e o Stress III em 1996
novamente independente, discos estes, que
até escutando tem uma qualidade muito
boa de composições, o que aconteceu
que foram tão pouco num período
relativamente longo de banda? E o contrato
com a Polygram porque não vingou? |
Roosevelt: No início as coisas
andaram um pouco devagar, mesmo. Começamos
em 75 tocando covers só por diversão,
foi só no final de 78 que começamos
a ter a pretensão de compor nossas
músicas, pois já tínhamos
uma certa sensibilidade harmônica e
a ousadia sempre nos perseguiu. Daí
até a gravação do primeiro
disco foram 4 anos, é muito tempo,
mas, nesse período estávamos
curtindo a adolescência, onde pegar
“todas” as garotas tinha uma certa
prioridade. Foi só a partir da decisão
de ir pro Rio gravar que as coisas começaram
a ficar mais sérias nas nossas cabeças.
Já havia o desejo de personalizar nosso
som e de mostrar pro maior número de
pessoas possível.
Depois dessa gravação as coisas
começaram a acontecer mais rapidamente.
Lançamos o disco em Belém para
uma platéia de cerca de 20.000 pessoas,
no estádio do Payssandú, foi
o maior show de uma banda local de todos os
tempos e um dos maiores já realizados
até hoje na cidade. Em abril de 83
fizemos o primeiro show fora de Belém,
foi no Circo Voador, Rio de Janeiro. Por conta
da divulgação de demo tapes
feitas pelos fanzines, já éramos
bastante conhecidos dos roqueiros cariocas,
pelo menos de nome. Foi uma das maiores bilheterias
do Circo, com pessoas dependuradas até
nas armações metálicas
que sustentavam a lona. A rádio Fluminense
anunciava a todo instante: “Diretamente
do inferno amazônico..., o Judas Priest
brasileiro..., a banda mais pesada do Brasil...”.
Parecia coisa de ficção pra
nós, a casa lotada, alguns estavam
lá desde a passagem de som, os caras
– e as garotas, no Rio tinham muitas,
nos receberam muito bem, um pouco incrédulos
com a origem da banda, até cantavam
os refrões das músicas. Só
como curiosidade, no final do show bateu a
“pressão” e nós
quebramos os instrumentos, que por sinal eram
alugados pela produção. A platéia,
depois de um mórbido silêncio,
invadiu o palco e nos carregou nos ombros
feito troféus. Alguns me disseram depois
que tinham visto a primeira banda de Heavy
do Brasil. Com a grande freqüência
de shows tivemos de nos mudar pro Rio. Em
85 fomos convidados a gravar pela Polygram,
achamos que seria a oportunidade de nossas
vidas. Mas, o investimento em divulgação
e distribuição foi zero, os
caras só gravaram e ta bom, se virem!.
Ainda assim o “Flor Atômica”
serviu pra aumentar a popularidade e o prestígio
da banda, pois ninguém havia gravado
por uma gravadora oficial antes e por conta
desse lançamento conseguimos algumas
boas matérias em jornais e revistas
conceituadas. Em 87, quando deveríamos
gravar novamente, as gravadoras começaram
a redirecionar o som da maioria das bandas
por elas contratadas para que ficassem mais
comerciais, fáceis de tocar nas Fm’s.
A maioria das bandas do Rock Brasil não
se importou em retirar as guitarras distorcidas,
que já eram simbólicas, de seus
arranjos. Mas, como uma banda pesada como
o Stress poderia fazer isso? Em respeito ao
nosso fiel público e principal mente
às nossas convicções
optamos por não entrar no megaesquema
que mudou o rumo do até então
livre e espontâneo rock brasileiro.
Sem gravadora, os shows foram ficando mais
escassos e ficou inviável continuar
residindo no Rio. Achamos que era melhor esperar
uma reviravolta no panorama musical e quando
fosse o momento certo voltaríamos,
tocando rock pesado. Mais de dez anos se passaram
e somente de uns poucos anos pra cá
a guitarra distorcida tornou-se um requisito
indispensável nas composições
atuais, não assusta mais nenhum produtor
musical. Possivelmente, estamos vivenciando
um momento oportuno pro rock mais pesado,
onde o Stress poderia retomar sua trajetória
sem chocar mais a ninguém.
|
TGZ:
Falando dos 3 discos, você poderia
comentá-los um a um? Fale da época,
como foi gravá-los, lançá-los,
a distribuição e o consumo dos
fãs, etc. |
Roosevelt: No início dos anos
80 já tínhamos as músicas
todas prontas e devidamente selecionadas para
a gravação do primeiro disco.
Pegamos as mais rápidas e pesadas e
incluímos duas ou três não
tão rápidas, porém, com
peso considerável, não queríamos
deixar dúvidas sobre o estilo da banda,
que chamávamos na época de “rock
porrada”, mais que pesado, pois o termo
“Heavy Metal” ainda não
era difundido. Os custos de gravação
de um Lp no início dos anos 80 era
equivalente ao de um pequeno apartamento de
um quarto. Gravar independente não
era pra qualquer um. Reunimos todas as economias
e pegamos um ônibus pro Rio. Antes de
irmos contactamos o estúdio Sonoviso
que nos passou o orçamento e garantiu
que saberia gravar o nosso som e teriam tudo
que precisássemos para a gravação,
só não disseram que teríamos
de alugar deles. Depois de 3 dias de estrada
nos alojamos em beliches numa modesta pensão
no Catete, tínhamos de economizar ao
máximo. Chegando ao estúdio
nos ofereceram uma bateria toda quebrada,
tivemos de amarrar com barbantes e fitas adesivas
todas as peças pra que ficasse de pé.
A gravação em si foi uma correria,
fizemos tudo em dois períodos de 8
horas, alguns erros de execução
ficaram sem correção. Foi somente
na mixagem que o desapontamento veio, o resultado
não era compatível com o que
estávamos acostumados a ouvir, confirmavam-se
as nossas suspeitas de que os caras do estúdio
nunca tinham gravado rock pesado como o nosso.
Imaginem que eles sugeriram que tocássemos
com a guitarra sem distorção
que eles tinham uma máquina que a colocaria
durante a mixagem. Mas, já era tarde,
não tínhamos mais grana pra
consertar as coisas, até tivemos de
esperar que o técnico fosse ao banheiro
para fugirmos com a fita mixada, pois teríamos
de pagar extras pela mesma. No final das contas
resolvemos fazer 1000 cópias do disco
a título de registro, não imaginávamos
a importância que ele teria no futuro.
Em 85, logo após o “Rock’n
Rio I”, a Polygram resolveu que deveria
gravar uma banda de Heavy, fomos indicados
pelo Circo Voador e eles fizeram contato.
Achamos que aquela seria nossa grande oportunidade,
afinal, seríamos os primeiros a lançar
por uma multinacional. Não sabíamos
que o orçamento seria tão reduzido,
fizemos a gravação meio na correria
novamente. A divulgação ficou
restrita a matérias grátis,
que sairiam de qualquer maneira e a alguns
programas locais de televisão, também
grátis. De qualquer forma as revistas
especializadas e os fanzines fizeram comentários
elogiosos sobre o trabalho, aumentando a popularidade
da banda. Para alguns fãs a sonoridade
mais inteligível do ‘Flor Atômica’
deu a impressão de que as composições
perderam um pouco do peso, de certa forma
isso tem fundamento, não conseguimos
tirar um timbre de guitarra “disgracento”
como queríamos, conseguimos uma discreta
saturação que influenciou no
peso final das músicas. Tudo isso por
conta de uma caixa Marshall que não
suportava o volume do cabeçote que
não passou do nível 2, com isso
a distorção virou saturação.
Mas, o produtor resolveu que gravaríamos
daquele jeito mesmo. Poucos sabem desse detalhe,
apesar disso, o disco contém clássicos
do Metal como “Heavy Metal”, “Mate
o Réu”, “Não desista”
e “Flor Atômica”, é
um excelente trabalho também.
Depois da retirada em 87 a banda reuniu-se
somente em 95, na oportunidade revisitaram
obras que haviam ficado de fora dos dois primeiros
discos, rearranjaram-nas e compuseram outras
inéditas. A idéia inicial era
gravá-las numa demo a título
de registro, como as demos já eram
produzidas em cd resolvemos fazer 500 cópias
a pedido dos bangers de Belém e intitulamos
de “Stress III”. A gravação
não ficou tão ruim levando-se
em conta que foi feita dentro de um estúdio
caseiro montado dentro de um quarto de 3x3m.
Também não houve preocupação
em seguir uma linha musical, afinal, o disco
continha composições de várias
fazes da banda. Talvez não seja um
disco tão pesado quanto os outros,
mas, contém músicas que mostram
a evolução harmônica das
composições e a maturidade dos
músicos. Lá, pode-se ouvir pedradas
como “Estrela Azul” , Heavy Tradicional
como “Dor e Prazer”, Rock ‘n’
Roll em “A tua Mãe é Moça”
, música “saca” com “Acuda
Maria” e “Sexo Anual”, tem
“Folha no Vento” que merece destaque
e é um tesão de tocar ao vivo,
tem uma balada meio progressiva feita em homenagem
à N.S. de Nazaré – padroeira
dos paraenses - e ao Círio chamada
“Fé em Procissão”,
esta última é de arrepiar, uma
de nossas melhores composições.
Com a exceção do ‘Flor
Atômica’, que teve distribuição
“nacional” pela Polygram, os outros
discos foram independentes e, portanto, com
aquela já conhecida distribuição
artesanal de mão em mão. Acredito
que não haja mais cópias à
venda de nenhum dos três discos, exceto
se alguém que tenha queira revendê-las,
o que eu acho pouco provável dado ao
teor histórico e à raridade
que os discos se tornaram.
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TGZ:
As influências do Stress remete às
bandas dos anos setenta e oitenta como Judas,
Saxon, Black Sabbath, Nazareth, mas o som
é bastante característico como
um som do Stress, tanto pelo fato de ser em
português, como pela sonoridade que
tinha muita personalidade, como a mídia
encarava vocês na época? |
Roosevelt: É muito bom que hoje
as pessoas reconheçam essa característica
pessoal no som do Stress, pois, no início,
quase ninguém escrevia uma resenha
sem nos comparar ao Judas, ao Motorhead e
até ao Led
Zeppelin. Até compreendo que tenha
havido tais comparações, afinal,
nunca negamos nossas influências. Comparações
à parte, dava pra citar algo de pessoal
na nossa sonoridade. Sempre tivemos muita
preocupação de retirar das composições
tudo que se parecesse com coisas já
existentes, que às vezes provinham
do próprio inconsciente no momento
da criação. Ouvíamos
muitos discos das bandas pesadas da época,
mas, como éramos ousados, queríamos
fazer um som diferenciado: “Vamos tocar
mais rápido, mais agressivo e pesado
do que qualquer outra banda no mundo”.
Com esse pensamento começamos a compor
nossas primeiras músicas, que fariam
parte do “Stress”. Não
sei se foi obra do destino, mas, aquele timbre
meio “podre” que tiramos dos instrumentos
nesse disco, pra alguns até acrescentou
um peso extra às músicas. Porém,
o fator principal - além das harmonias
pesadas inerentes às próprias
composições- foi a maneira como
foram interpretadas no exato momento da gravação,
com requintes de “crueldade”,
mesmo. Aquele era o momento, estávamos
no meio de uma “batalha” defendendo
nossas convicções. Era agora
ou nunca.
Apesar das inevitáveis comparações
fomos muito bem tratados pela crítica.
Aqui em Belém era possível ouvir
várias faixas do disco nas principais
Fm’s, durante a programação
normal. Os jornais escritos fizeram resenhas
mais contidas, sem elogios ou críticas,
talvez pelo fato de não haver ninguém
especializado em comentar o nosso tipo de
som. Com relação à mídia
nacional, os primeiros a tomarem conhecimento
foram as revistas especializadas da época
– Somtres, Roll, Dicionário do
Rock... Todas sempre com resenhas elogiosas
enfatizavam o som pesado com letras fortes,
recheados de rifs poderosos e solos agressivos
das composições, todas em português,
além de sempre citarem nossa origem
com um “quê” de curiosidade.
|
TGZ:
E as letras, hein? Comente as composições
líricas do Stress. |
Roosevelt: As primeiras composições
começaram no final de 78. Com o conhecimento
de apenas alguns acordes básico de
violão que aprendi olhando o Pedro
tocar e “fussando” no meu durante
horas diárias, resolvi que era hora
de me aventurar a fazer música. Via
de regra eu começava a partir de um
riff principal, normalmente usado na introdução
e após os refrões, arranjava
uma base pro vocal, quase sempre tinha um
pré-refrão seguido do refrão,
a base do solo de guitarra era específica
pra ele, às vezes acrescentávamos
umas passagens diferenciadas e, a grosso modo,
era assim que eu tentava organizar a estrutura
das músicas pra que tivessem uma certa
coerência. Naquela época a melodia
vocal era definida no momento em que a letra,
feita separadamente, era encaixada –
na metodologia de hoje a melodia é
feita no momento da composição,
facilitando a confecção e o
encaixe da letra - o que às resultava
num trabalhinho extra pra ficar tudo em harmonia.
Quem tomou a iniciativa de compor as letras
foi o André (baterista) que já
tinha uma certa facilidade pra escrever, além
de ser um cara inteligente e antenado. Só
pra ilustrar, todos os caras do Stress eram
muito inteligentes, beirando a genialidade,
eu diria, sem serem pessoas estranhas e tínhamos
um senso de humor e uma criatividade de botar
a galera do Casseta & Planeta no saco.
Bom, falando das letras elas abrangiam principalmente
temas como: as injustiças sociais,
a despersonalização do indivíduo,
a violência com suas causas e efeitos,
o positivismo de um futuro melhor e algumas
situações vivenciadas por nós.
Sempre muito bem escritas e colocadas, as
letras vieram dar um toque a mais de rebeldia
às músicas já “disgracentas”
do disco. Desde então a parceria Bala/André
(assim como: Lennon / M’Cartney, Roberto/Erasmo...)
vem sendo responsável por quase todas
as composições da banda.
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TGZ:
Ser pioneiro deve causado um certo impacto,
e depois de vocês surgiram inúmeras
bandas que faziam músicas também
em português; como eram os contatos,
vocês tocavam muito em outros estados?
Quais foram os melhores shows do Stress? |
Roosevelt:
Temos consciência de que foi só
depois de terem conhecido o Stress que os
até então só admiradores
e consumidores de rock pesado tiveram o incentivo
decisivo pra que começassem a formar
suas
próprias bandas. O que parecia impossível,
já não era mais, um sem número
de bandas começou a surgir em todo
o país e logo já não
estávamos mais sozinhos nessa batalha.
Até os dias de hoje os caras do Sepultura
declaram em entrevistas que começaram
a tocar por causa do Stress, teve alguém
do Angra que também falou, enfim, é
motivo de orgulho pra nós saber que
começamos algo tão grandioso
no nosso país.
A primeira vez que tocamos fora do Pará
foi em abril de 83, no Circo Voador, Rio de
Janeiro. Não costumávamos tocar
fora e logo na primeira vez iríamos
encarar um público totalmente desconhecido
pra nós. No fundo tínhamos tanta
admiração pelo Rio, em função
do que a mídia nos “empurrava”
sobre suas belezas e modismos, prontamente
consumidos por nós provincianos, que
já chegamos lá um pouco tímidos.
Não demorou muito pra percebermos que
estávamos bem à frente da sonoridade
das bandas cariocas que fizeram a abertura
do show. Apesar da ótima qualidade
dos músicos, seus instrumentos –
até então nunca tínhamos
visto um amplificador, uma guitarra ou um
contrabaixo importado, ficamos algum tempo
admirando-os na passagem de som - e do profissionalismo
incontestável demonstrado durante suas
apresentações, nenhuma das bandas
tocou rock pesado de verdade. Demos ao público
o que eles queriam, o mais puro Heavy Metal
brasileiro. Além desse show, poderia
dizer que o nosso primeiro show oficial em
setembro de 77 será sempre um de meus
favoritos. O show do estádio do Payssandú
em novembro de 82 em Belém foi um encontro
jamais visto entre os roqueiros da cidade.
Outro show muito divertido foi o que fizemos
no Festival de Juiz de Fora em Junho de 86,
no estádio de futebol de lá,
os bangers fizeram o Cazuza terminar o show
dele antes da hora pra que o Stress entrasse
logo, foi um pouco indelicado, mas, foi lisonjeiro.
Dos shows mais recentes adorei o último
que fizemos em Belém, podia-se ver
três gerações distintas
de público, de crianças a idosos,
foi incrível ouvi-los cantando nossas
músicas.
|
TGZ:
Inclusive, quais as bandas brasileiras
que você destaca da época dos
anos 80? |
Roosevelt: Como morei um tempo no Rio,
fiz muitas amizades por lá, na sua
grande maioria com caras de bandas. Portanto,
conheci mais bandas cariocas do que de outros
lugares. A maioria dessas bandas já
não está mais em atividade,
mas gostaria de citar algumas que me agradavam
muito: Azul Limão, Metalmorfose, Dorsal
Atlântica, Taurus, Sangue da Cidade,
Metal Pesado, Overdose, Sepultura, Kamikase,
Viper, Korzus, R.D.P, Cólera, Patrulha
do Espaço, Chave do Sol, Karisma e
uma de Belém chamada Apocalipse, que
surgiu logo depois do Stress. Tinha muita
banda boa, é que agora não vou
conseguir lembrar, vou ficar devendo algumas.
|
TGZ:
Faça um comparativo entre a época
de outrora com a atual, enfatizando as principais
mudanças ocorridas, tanto ruins, como
boas. Antigamente não tinha tantos
rótulos como hoje em dia, que existem
mesmo sub + sub rótulos para noção
do som e conceito que as bandas transmitem;
sendo que no final das contas, muitos nem
entendem que tudo é Heavy Metal (Metal
Pesado), criaturas que desrespeitam/ofendem
o gosto uns dos outros dentro de suas preferências
pessoais, fazendo enfraquecer o cenário.
Qual o seu parecer sobre esse tipo de atitude?
O que fazer e como entender essas mentes? |
Roosevelt: Nos anos 70 havia os “roqueiros”
- pessoas que se sentiam especiais por terem
um gosto musical diferenciado - que eram tão
unidos e prestativos uns com os outros que
pareciam fazer parte de uma irmandade. O roqueiro
era o cara que curtia o rock e o rock, apesar
de possuir várias vertentes, era um
estilo bem definido na cabeça de seus
admiradores. Quem costumava ouvir Beatles
e Creedence no final dos anos 60, começou
a também ouvir coisas novas como: Jimmy
Hendrix, Santana, Pink Floyd, Yes, The Who
e tudo mais que começava a surgir,
sem fazer distinção ou estabelecer
preconceitos contra essa ou aquela peculiaridade
do rock. Progressivo, Pesado, Latino, Pop...
O importante era ser rock. Ainda nos primeiros
anos da década começaram a surgir
bandas com uma sonoridade mais pesada. The
Sweet, Deep Purple, Led Zeppelin e Black Sabbath
foram os precursores do que viria a ser o
Heavy Metal. Até aí tava tudo
bem, o Heavy era mais uma das vertentes do
rock que, assim como as demais, também
tinha seus admiradores. Mas, não demorou
muito pra que o Heavy se tornasse absoluto
e independente. O surgimento de bandas como:
AC/DC, U.F.O, Judas Priest, Saxon e Motorhead
tornaram o Heavy bastante popular em todo
o mundo. Veio então a década
de oitenta, estávamos vivendo um ótimo
momento. Em 85 tivemos o Rock’n Rio
I, com Iron Maiden, Scorpions, Queen, Ac/Dc
e outros, foi um momento de mudanças
importantes. Naquela oportunidade já
se podia observar uma clara divisão
entre os amantes do rock, que trouxe de quebra
os radicalismos. Alguns “radicais”
que foram pra assistir ao Maiden e Ozzy, considerados
pesados naquela época, ficavam sacaneando
e torciam o rabo pro Queen, WhiteSnake e outros
monstros do rock que vieram naquele festival.
O surgimento de bandas com um Heavy diferenciado,
por isso receberam ou deram-se rótulos
mais específicos, acelerou o processo
de segmentação do até
então único e absoluto Heavy
Metal. O que poderia ter sido uma evolução
– ou involução para muitos
- foi motivo de “racha” entre
os fãs do Metal. Nascia aí as
várias faces do Metal: Thrash, Death,
Power, Speed, Black, White... Shit (deveria
ter esse também). Nada de errado se
os caras respeitassem a individualidade e
as preferências uns dos outros. O que
se viu a partir daí foi uma ridícula
guerra de egos e uma intolerância descontrolada
que fizeram com que uns passassem a recriminar
os outros em defesa de suas verdades pessoais
e absolutas. Se tudo caminhasse natural e
evolutivamente do jeito que vinha acontecendo
- da mesma forma que o Rock’n Roll abriu
passagem pro Heavy Metal - era de se esperar
que algo de novo surgisse naturalmente como
mais uma herança do velho rock. Mas,
ao invés disso, o que se viu foi o
rompimento das relações “genealógicas”
entre os netos e o avô, com isso ficou
evidente no final dos 80 o progressivo enfraquecimento
do movimento metálico no Brasil. Algumas
das bandas que alimentaram essa discórdia
– provavelmente sem ter idéia
disso e do estrago que fizeram no nosso movimento
- já nem existem mais, ou se existem,
devem estar tocando pra uma minoria restrita
de radicais, coincidência ou não
nenhuma delas esteve no topo entre melhores
em nenhum momento da história. O que
me tranqüiliza é o fato de que
nos dias atuais parece-me que o radicalismo
está démodé, já
existe mais respeito e as tribos conseguem
conviver em harmonia. Espero que eu esteja
certo.
|
TGZ:
Agora com essa grandiosa notícia da
volta da banda, mesmo com as ocupações
cotidianas (Você, Roosevelt, trabalhando
no Pará, Paulo Gui em Brasília,
André Chamon e Leonardo Renda no Rio
de Janeiro), como estão os planos de
composições, gravações,
shows, divulgação, enfim...
|
Roosevelt: Atualmente todos temos nossos
compromissos profissionais e familiares bem
definidos, não temos como abrir mão
deles. O que pretendemos fazer é um
planejamento adequado pra que possamos fazer
shows fora de nossas cidades sem que isso
interfira nos nossos compromissos já
assumidos. Vamos agendar os shows somente
aos fins de semana e feriados. Certamente
não nos restará outra alternativa
de viagem que não seja via aérea,
onde cada um sairá da cidade onde mora
e após o evento retornará pra
lá. Só vejo essa saída
no momento, futuramente pode ser que mude
alguma coisa. Estamos à procura de
uma empresa de assessoria pra resolver a parte
da agenda de shows e tudo que se refere a
isso, pois não temos tempo pra fazer
esse trabalho pessoalmente. Pretendemos utilizar,
também, uma assessoria de imprensa
para divulgação de nossos produtos
que deverão ser comercializados através
do site da banda. Vamos fazer tudo com muito
planejamento e paciência pra que a gente
possa se divertir sem dor-de-cabeça.
|
TGZ:
E a sonoridade virá na linha mais
rápida do 1º disco ou mais cadenciada
como nos outros 2 álbuns, ou numa fusão
dessas tradições para a continuidade
do feeling a transmitir? |
Roosevelt: As composições
rápidas e pesadas foram o diferencial
que projetou a banda para o Brasil –
pioneiros do Heavy Metal - e mais recentemente
para o mundo – pioneiros do Thrash Metal.
Sempre fizemos questão de incluir nos
discos o que costumamos chamar de músicas
no tradicional estilo “Stress”,
não só por que os fãs
esperam por isso, mas, porque são a
nossa especialidade e são de nossa
predileção. Para um próximo
trabalho certamente músicas nessa linha
não faltarão. As músicas
não estão prontas ainda, tudo
vai começar a se definir quando nos
reunirmos em maio. Já tenho algumas
idéias em andamento e delas posso adiantar
que contém todos os ingredientes de
um bom Heavy Metal: Velocidade nos momentos
certos, melodia marcante, peso e feeling na
(over) dose necessária. Logicamente
que hoje temos mais informações
e provavelmente algo de novo será acrescentado
à sonoridade inicial, mas, tomaremos
o cuidado de não “inventar”
muito pra não descaracterizar ou “afrescalhar”
nosso som. Continuaremos com a premissa que
desde o início foi estabelecida de
comum acordo entre os nós da banda:
“Tocaremos o som que gostaríamos
de ouvir”, esperamos que a galera também
goste.
|
TGZ:
Legal! É muito bom saber que não
vão adicionar elementos modernosos
para não descaracterizar o som, pois
sabes que todos esperam pelo Stress da forma
mais elétrica possível. Você
quer acrescentar algo que, por ventura, não
lhe foi perguntado? |
Roosevelt: Viemos de uma cidade sem nenhuma
tradição no Rock, distante de
todos os ditos centros culturais do país
onde muitos desinformados acreditam que ainda
vivemos em palhoças cercadas por uma
imensa floresta nativa na qual habitam animais
perigosos e outros já domesticados
passeiam dentro de casa e pelas ruas dos nossos
vilarejos. Mas, quem visita Belém e
conhece sua gente se surpreende. Temos toda
a tecnologia e o desenvolvimento necessários
a uma grande capital do país com a
vantagem de sermos um povo gentil, alegre,
hospitaleiro e incrivelmente talentoso para
as artes, especialmente para a música
– alguns dos melhores baixistas do Brasil
são de Belém -. Ainda podemos
nos divertir de segunda a segunda, amanhecendo
nas ruas e bares – todos com música
ao vivo – sem que uma bala perdida nos
encontre. De quebra temos um repertório
de lindas garotas de todos os tipos que lotam
as casas
de shows e bares para verem as centenas de
bandas de rock que fazem de Belém a
capital do rock no Brasil. Estão surpresos?
Pois é, acho que já era hora
dos produtores musicais darem uma “passadinha”
pra conferir. Conheço muita banda local
que dá de porrada na maioria dessas
que a mídia “sulista” e
a Jovem Pam tentam nos enfiar ouvido adentro.
Se ainda acham que estou exagerando, pensem
um pouco e voltem 30 anos no tempo pra relembrar
que foi dessa selva que surgiu para o Brasil
e para o mundo os “Indios” mais
pesados Rock TUPINIQUIM. Desculpem por tocar
na “ferida”, isso ainda deve incomodar
muito colunista bairrista que se diz especializado
em rock e que ainda se recusa a aceitar esse
fato. Também é fato que existe
vida roqueira na selva amazônica, já
há muitos anos por sinal. Confiram!
(
www.stress.mus.br )
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TGZ:
Beleza, amigo Roosevelt, para nós
é um imenso prazer esse contato, nós
damos o maior valor às bandas ‘das
antigas’, também gostamos muito
de Heavy Rock Metal cantado na nossa língua...
Nessa emoção, saber da volta
de bandas das antigas como a Stress e algumas
outras, nos faz incondicionalmente apoiar
espontânea e sinceramente, obrigado!
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Roosevelt: Nós do Stress e certamente
todas as bandas do circuito alternativo agradecemos
o heróico trabalho desenvolvido pelos
zines especializados, eletrônicos e
impressos, por levarem as informações
corretas e imparciais aos milhões de
admiradores do rock em toda sua plenitude
e abrangência, dando-nos essa preciosa
oportunidade de contar nossa história
sob nosso próprio ponto de vista. Agradeço
ao Elimar, ao Cezar, a toda a equipe do TGZ
e a você que dedicou seu tempo à
leitura dessa matéria.
Um “pesado” abraço ...
Roosevelt Bala ( Belém-Pará-Amazônia-Brasil
)
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