» ENTREVISTA: STRESS «

} Realizada por: Elimar Oliveira e Cezar Augusto

} Respondida por: Roosevelt

Stress

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TGZ: Como foi formar uma banda de Rock'n Roll em plenos anos 70 no Brasil, mais precisamente em Belém do Pará, sendo vocês a 1ª de Heavy no Brasil?

Roosevelt:
Não tínhamos nenhuma referência aqui no Brasil, em Belém...nem se fala. Os poucos discos de rock que encontrávamos nas lojas chegavam com anos de atraso. As revistas quase nem chegavam, quando isso acontecia ficavam surradas de tanto passarem de mão em mão, emprestadas de um roqueiro para outro. Entre os roqueiros, como eram chamados uns pelos outros os caras que curtiam rock, havia uma união impressionante, era quase uma irmandade. Se alguém te dissesse que lá na casa do c... Havia um cara que tinha o mais recente álbum do Sweet, por exemplo, tu pegavas alguns dos teus melhores Lps e ias procurar a casa do elemento, chegando lá tu perguntavas: És tu que és roqueiro? Daí rolava logo uma sessão de rock na velha eletrola e uma sólida amizade se formava. Foi desse jeito que quatro roqueiros que se conheceram na escola resolveram que seria legal tocar aquelas músicas e não somente ouvi-las. Escolheram os instrumentos, sem mesmo saber tocar nada, e começaram a aprender enquanto se “batiam” tentando tocar suas canções prediletas nos ensaios de fim de semana, isso aconteceu em 75. Naquela oportunidade nascia o embrião da primeira banda de Heavy do Brasil.

TGZ: Se hoje as dificuldades atrapalham e até impedem alguma iniciativa como esta, creio que há 30 atrás era muito, mas muito mais difícil, mas diga-nos, houve momentos em que vocês pensaram em desistir? Deve ter havido também claro, momentos em que vocês pensavam, vamos até o fim, poderia citá-los?

Roosevelt:
Além da já mencionada escassez de discos e revistas – vídeos...nem pensar - , os instrumentos eram caríssimos, alguns caras da banda tiveram dificuldades em adquiri-los,todos nacionais, é lógico, importados só contrabandeados do exterior. Não havia nenhum profissionalismo, desde as primeiras apresentações em festinhas de aniversário e festivais escolares toda a “produção”, se é que se podia usar esse termo tão profissional, era feita por nós. Desde a confecção e afixação de faixas e cartazes pelas ruas, pagamento de licenças, venda de ingressos de mão em mão, peregrinação pelos jornais e rádios, montagem de palco, cenário e o mais difícil: encontrar na cidade um som (PA) pra fazer a cobertura do show, pois a cada show realizado era um som descartado. Logo após o show tínhamos de desmontar tudo, mas, éramos muito jovens e a felicidade era tamanha que não percebíamos a fadiga depois de tudo. Alguns teatros e ginásios se opunham à realização de shows de rock, ainda assim conseguimos quebrar alguns tabus e os recordes de bilheterias desses mesmos lugares. Apesar desses e uma série de outros obstáculos típicos de uma cidade provinciana como Belém era, em nenhum momento pensamos em desistir, levávamos tudo com muito bom humor e a amizade crescente entre nós não deixava que as adversidades interferissem na nossa, até então, diversão predileta. Mesmo quando paramos em 87, e mais de uma década se passou, não assumimos que seria o fim, em algum momento mais oportuno voltaríamos aos palcos.

TGZ: O Stress gravou três discos, Stress I de 1982 (independente), Flor Atômica de 1985 (Polygram) e o Stress III em 1996 novamente independente, discos estes, que até escutando tem uma qualidade muito boa de composições, o que aconteceu que foram tão pouco num período relativamente longo de banda? E o contrato com a Polygram porque não vingou?

Roosevelt:
No início as coisas andaram um pouco devagar, mesmo. Começamos em 75 tocando covers só por diversão, foi só no final de 78 que começamos a ter a pretensão de compor nossas músicas, pois já tínhamos uma certa sensibilidade harmônica e a ousadia sempre nos perseguiu. Daí até a gravação do primeiro disco foram 4 anos, é muito tempo, mas, nesse período estávamos curtindo a adolescência, onde pegar “todas” as garotas tinha uma certa prioridade. Foi só a partir da decisão de ir pro Rio gravar que as coisas começaram a ficar mais sérias nas nossas cabeças. Já havia o desejo de personalizar nosso som e de mostrar pro maior número de pessoas possível.
Depois dessa gravação as coisas começaram a acontecer mais rapidamente. Lançamos o disco em Belém para uma platéia de cerca de 20.000 pessoas, no estádio do Payssandú, foi o maior show de uma banda local de todos os tempos e um dos maiores já realizados até hoje na cidade. Em abril de 83 fizemos o primeiro show fora de Belém, foi no Circo Voador, Rio de Janeiro. Por conta da divulgação de demo tapes feitas pelos fanzines, já éramos bastante conhecidos dos roqueiros cariocas, pelo menos de nome. Foi uma das maiores bilheterias do Circo, com pessoas dependuradas até nas armações metálicas que sustentavam a lona. A rádio Fluminense anunciava a todo instante: “Diretamente do inferno amazônico..., o Judas Priest brasileiro..., a banda mais pesada do Brasil...”. Parecia coisa de ficção pra nós, a casa lotada, alguns estavam lá desde a passagem de som, os caras – e as garotas, no Rio tinham muitas, nos receberam muito bem, um pouco incrédulos com a origem da banda, até cantavam os refrões das músicas. Só como curiosidade, no final do show bateu a “pressão” e nós quebramos os instrumentos, que por sinal eram alugados pela produção. A platéia, depois de um mórbido silêncio, invadiu o palco e nos carregou nos ombros feito troféus. Alguns me disseram depois que tinham visto a primeira banda de Heavy do Brasil. Com a grande freqüência de shows tivemos de nos mudar pro Rio. Em 85 fomos convidados a gravar pela Polygram, achamos que seria a oportunidade de nossas vidas. Mas, o investimento em divulgação e distribuição foi zero, os caras só gravaram e ta bom, se virem!. Ainda assim o “Flor Atômica” serviu pra aumentar a popularidade e o prestígio da banda, pois ninguém havia gravado por uma gravadora oficial antes e por conta desse lançamento conseguimos algumas boas matérias em jornais e revistas conceituadas. Em 87, quando deveríamos gravar novamente, as gravadoras começaram a redirecionar o som da maioria das bandas por elas contratadas para que ficassem mais comerciais, fáceis de tocar nas Fm’s. A maioria das bandas do Rock Brasil não se importou em retirar as guitarras distorcidas, que já eram simbólicas, de seus arranjos. Mas, como uma banda pesada como o Stress poderia fazer isso? Em respeito ao nosso fiel público e principal mente às nossas convicções optamos por não entrar no megaesquema que mudou o rumo do até então livre e espontâneo rock brasileiro. Sem gravadora, os shows foram ficando mais escassos e ficou inviável continuar residindo no Rio. Achamos que era melhor esperar uma reviravolta no panorama musical e quando fosse o momento certo voltaríamos, tocando rock pesado. Mais de dez anos se passaram e somente de uns poucos anos pra cá a guitarra distorcida tornou-se um requisito indispensável nas composições atuais, não assusta mais nenhum produtor musical. Possivelmente, estamos vivenciando um momento oportuno pro rock mais pesado, onde o Stress poderia retomar sua trajetória sem chocar mais a ninguém.

TGZ: Falando dos 3 discos, você poderia comentá-los um a um? Fale da época, como foi gravá-los, lançá-los, a distribuição e o consumo dos fãs, etc.

Roosevelt:
No início dos anos 80 já tínhamos as músicas todas prontas e devidamente selecionadas para a gravação do primeiro disco. Pegamos as mais rápidas e pesadas e incluímos duas ou três não tão rápidas, porém, com peso considerável, não queríamos deixar dúvidas sobre o estilo da banda, que chamávamos na época de “rock porrada”, mais que pesado, pois o termo “Heavy Metal” ainda não era difundido. Os custos de gravação de um Lp no início dos anos 80 era equivalente ao de um pequeno apartamento de um quarto. Gravar independente não era pra qualquer um. Reunimos todas as economias e pegamos um ônibus pro Rio. Antes de irmos contactamos o estúdio Sonoviso que nos passou o orçamento e garantiu que saberia gravar o nosso som e teriam tudo que precisássemos para a gravação, só não disseram que teríamos de alugar deles. Depois de 3 dias de estrada nos alojamos em beliches numa modesta pensão no Catete, tínhamos de economizar ao máximo. Chegando ao estúdio nos ofereceram uma bateria toda quebrada, tivemos de amarrar com barbantes e fitas adesivas todas as peças pra que ficasse de pé. A gravação em si foi uma correria, fizemos tudo em dois períodos de 8 horas, alguns erros de execução ficaram sem correção. Foi somente na mixagem que o desapontamento veio, o resultado não era compatível com o que estávamos acostumados a ouvir, confirmavam-se as nossas suspeitas de que os caras do estúdio nunca tinham gravado rock pesado como o nosso. Imaginem que eles sugeriram que tocássemos com a guitarra sem distorção que eles tinham uma máquina que a colocaria durante a mixagem. Mas, já era tarde, não tínhamos mais grana pra consertar as coisas, até tivemos de esperar que o técnico fosse ao banheiro para fugirmos com a fita mixada, pois teríamos de pagar extras pela mesma. No final das contas resolvemos fazer 1000 cópias do disco a título de registro, não imaginávamos a importância que ele teria no futuro.
Em 85, logo após o “Rock’n Rio I”, a Polygram resolveu que deveria gravar uma banda de Heavy, fomos indicados pelo Circo Voador e eles fizeram contato. Achamos que aquela seria nossa grande oportunidade, afinal, seríamos os primeiros a lançar por uma multinacional. Não sabíamos que o orçamento seria tão reduzido, fizemos a gravação meio na correria novamente. A divulgação ficou restrita a matérias grátis, que sairiam de qualquer maneira e a alguns programas locais de televisão, também grátis. De qualquer forma as revistas especializadas e os fanzines fizeram comentários elogiosos sobre o trabalho, aumentando a popularidade da banda. Para alguns fãs a sonoridade mais inteligível do ‘Flor Atômica’ deu a impressão de que as composições perderam um pouco do peso, de certa forma isso tem fundamento, não conseguimos tirar um timbre de guitarra “disgracento” como queríamos, conseguimos uma discreta saturação que influenciou no peso final das músicas. Tudo isso por conta de uma caixa Marshall que não suportava o volume do cabeçote que não passou do nível 2, com isso a distorção virou saturação. Mas, o produtor resolveu que gravaríamos daquele jeito mesmo. Poucos sabem desse detalhe, apesar disso, o disco contém clássicos do Metal como “Heavy Metal”, “Mate o Réu”, “Não desista” e “Flor Atômica”, é um excelente trabalho também.
Depois da retirada em 87 a banda reuniu-se somente em 95, na oportunidade revisitaram obras que haviam ficado de fora dos dois primeiros discos, rearranjaram-nas e compuseram outras inéditas. A idéia inicial era gravá-las numa demo a título de registro, como as demos já eram produzidas em cd resolvemos fazer 500 cópias a pedido dos bangers de Belém e intitulamos de “Stress III”. A gravação não ficou tão ruim levando-se em conta que foi feita dentro de um estúdio caseiro montado dentro de um quarto de 3x3m. Também não houve preocupação em seguir uma linha musical, afinal, o disco continha composições de várias fazes da banda. Talvez não seja um disco tão pesado quanto os outros, mas, contém músicas que mostram a evolução harmônica das composições e a maturidade dos músicos. Lá, pode-se ouvir pedradas como “Estrela Azul” , Heavy Tradicional como “Dor e Prazer”, Rock ‘n’ Roll em “A tua Mãe é Moça” , música “saca” com “Acuda Maria” e “Sexo Anual”, tem “Folha no Vento” que merece destaque e é um tesão de tocar ao vivo, tem uma balada meio progressiva feita em homenagem à N.S. de Nazaré – padroeira dos paraenses - e ao Círio chamada “Fé em Procissão”, esta última é de arrepiar, uma de nossas melhores composições.
Com a exceção do ‘Flor Atômica’, que teve distribuição “nacional” pela Polygram, os outros discos foram independentes e, portanto, com aquela já conhecida distribuição artesanal de mão em mão. Acredito que não haja mais cópias à venda de nenhum dos três discos, exceto se alguém que tenha queira revendê-las, o que eu acho pouco provável dado ao teor histórico e à raridade que os discos se tornaram.

TGZ: As influências do Stress remete às bandas dos anos setenta e oitenta como Judas, Saxon, Black Sabbath, Nazareth, mas o som é bastante característico como um som do Stress, tanto pelo fato de ser em português, como pela sonoridade que tinha muita personalidade, como a mídia encarava vocês na época?

Roosevelt:
É muito bom que hoje as pessoas reconheçam essa característica pessoal no som do Stress, pois, no início, quase ninguém escrevia uma resenha sem nos comparar ao Judas, ao Motorhead e até ao Led Zeppelin. Até compreendo que tenha havido tais comparações, afinal, nunca negamos nossas influências. Comparações à parte, dava pra citar algo de pessoal na nossa sonoridade. Sempre tivemos muita preocupação de retirar das composições tudo que se parecesse com coisas já existentes, que às vezes provinham do próprio inconsciente no momento da criação. Ouvíamos muitos discos das bandas pesadas da época, mas, como éramos ousados, queríamos fazer um som diferenciado: “Vamos tocar mais rápido, mais agressivo e pesado do que qualquer outra banda no mundo”. Com esse pensamento começamos a compor nossas primeiras músicas, que fariam parte do “Stress”. Não sei se foi obra do destino, mas, aquele timbre meio “podre” que tiramos dos instrumentos nesse disco, pra alguns até acrescentou um peso extra às músicas. Porém, o fator principal - além das harmonias pesadas inerentes às próprias composições- foi a maneira como foram interpretadas no exato momento da gravação, com requintes de “crueldade”, mesmo. Aquele era o momento, estávamos no meio de uma “batalha” defendendo nossas convicções. Era agora ou nunca.
Apesar das inevitáveis comparações fomos muito bem tratados pela crítica. Aqui em Belém era possível ouvir várias faixas do disco nas principais Fm’s, durante a programação normal. Os jornais escritos fizeram resenhas mais contidas, sem elogios ou críticas, talvez pelo fato de não haver ninguém especializado em comentar o nosso tipo de som. Com relação à mídia nacional, os primeiros a tomarem conhecimento foram as revistas especializadas da época – Somtres, Roll, Dicionário do Rock... Todas sempre com resenhas elogiosas enfatizavam o som pesado com letras fortes, recheados de rifs poderosos e solos agressivos das composições, todas em português, além de sempre citarem nossa origem com um “quê” de curiosidade.

TGZ: E as letras, hein? Comente as composições líricas do Stress.

Roosevelt:
As primeiras composições começaram no final de 78. Com o conhecimento de apenas alguns acordes básico de violão que aprendi olhando o Pedro tocar e “fussando” no meu durante horas diárias, resolvi que era hora de me aventurar a fazer música. Via de regra eu começava a partir de um riff principal, normalmente usado na introdução e após os refrões, arranjava uma base pro vocal, quase sempre tinha um pré-refrão seguido do refrão, a base do solo de guitarra era específica pra ele, às vezes acrescentávamos umas passagens diferenciadas e, a grosso modo, era assim que eu tentava organizar a estrutura das músicas pra que tivessem uma certa coerência. Naquela época a melodia vocal era definida no momento em que a letra, feita separadamente, era encaixada – na metodologia de hoje a melodia é feita no momento da composição, facilitando a confecção e o encaixe da letra - o que às resultava num trabalhinho extra pra ficar tudo em harmonia. Quem tomou a iniciativa de compor as letras foi o André (baterista) que já tinha uma certa facilidade pra escrever, além de ser um cara inteligente e antenado. Só pra ilustrar, todos os caras do Stress eram muito inteligentes, beirando a genialidade, eu diria, sem serem pessoas estranhas e tínhamos um senso de humor e uma criatividade de botar a galera do Casseta & Planeta no saco. Bom, falando das letras elas abrangiam principalmente temas como: as injustiças sociais, a despersonalização do indivíduo, a violência com suas causas e efeitos, o positivismo de um futuro melhor e algumas situações vivenciadas por nós. Sempre muito bem escritas e colocadas, as letras vieram dar um toque a mais de rebeldia às músicas já “disgracentas” do disco. Desde então a parceria Bala/André (assim como: Lennon / M’Cartney, Roberto/Erasmo...) vem sendo responsável por quase todas as composições da banda.

TGZ: Ser pioneiro deve causado um certo impacto, e depois de vocês surgiram inúmeras bandas que faziam músicas também em português; como eram os contatos, vocês tocavam muito em outros estados? Quais foram os melhores shows do Stress?

Roosevelt: Temos consciência de que foi só depois de terem conhecido o Stress que os até então só admiradores e consumidores de rock pesado tiveram o incentivo decisivo pra que começassem a formar suas próprias bandas. O que parecia impossível, já não era mais, um sem número de bandas começou a surgir em todo o país e logo já não estávamos mais sozinhos nessa batalha. Até os dias de hoje os caras do Sepultura declaram em entrevistas que começaram a tocar por causa do Stress, teve alguém do Angra que também falou, enfim, é motivo de orgulho pra nós saber que começamos algo tão grandioso no nosso país.
A primeira vez que tocamos fora do Pará foi em abril de 83, no Circo Voador, Rio de Janeiro. Não costumávamos tocar fora e logo na primeira vez iríamos encarar um público totalmente desconhecido pra nós. No fundo tínhamos tanta admiração pelo Rio, em função do que a mídia nos “empurrava” sobre suas belezas e modismos, prontamente consumidos por nós provincianos, que já chegamos lá um pouco tímidos. Não demorou muito pra percebermos que estávamos bem à frente da sonoridade das bandas cariocas que fizeram a abertura do show. Apesar da ótima qualidade dos músicos, seus instrumentos – até então nunca tínhamos visto um amplificador, uma guitarra ou um contrabaixo importado, ficamos algum tempo admirando-os na passagem de som - e do profissionalismo incontestável demonstrado durante suas apresentações, nenhuma das bandas tocou rock pesado de verdade. Demos ao público o que eles queriam, o mais puro Heavy Metal brasileiro. Além desse show, poderia dizer que o nosso primeiro show oficial em setembro de 77 será sempre um de meus favoritos. O show do estádio do Payssandú em novembro de 82 em Belém foi um encontro jamais visto entre os roqueiros da cidade. Outro show muito divertido foi o que fizemos no Festival de Juiz de Fora em Junho de 86, no estádio de futebol de lá, os bangers fizeram o Cazuza terminar o show dele antes da hora pra que o Stress entrasse logo, foi um pouco indelicado, mas, foi lisonjeiro. Dos shows mais recentes adorei o último que fizemos em Belém, podia-se ver três gerações distintas de público, de crianças a idosos, foi incrível ouvi-los cantando nossas músicas.

TGZ: Inclusive, quais as bandas brasileiras que você destaca da época dos anos 80?

Roosevelt:
Como morei um tempo no Rio, fiz muitas amizades por lá, na sua grande maioria com caras de bandas. Portanto, conheci mais bandas cariocas do que de outros lugares. A maioria dessas bandas já não está mais em atividade, mas gostaria de citar algumas que me agradavam muito: Azul Limão, Metalmorfose, Dorsal Atlântica, Taurus, Sangue da Cidade, Metal Pesado, Overdose, Sepultura, Kamikase, Viper, Korzus, R.D.P, Cólera, Patrulha do Espaço, Chave do Sol, Karisma e uma de Belém chamada Apocalipse, que surgiu logo depois do Stress. Tinha muita banda boa, é que agora não vou conseguir lembrar, vou ficar devendo algumas.

TGZ: Faça um comparativo entre a época de outrora com a atual, enfatizando as principais mudanças ocorridas, tanto ruins, como boas. Antigamente não tinha tantos rótulos como hoje em dia, que existem mesmo sub + sub rótulos para noção do som e conceito que as bandas transmitem; sendo que no final das contas, muitos nem entendem que tudo é Heavy Metal (Metal Pesado), criaturas que desrespeitam/ofendem o gosto uns dos outros dentro de suas preferências pessoais, fazendo enfraquecer o cenário. Qual o seu parecer sobre esse tipo de atitude? O que fazer e como entender essas mentes?

Roosevelt:
Nos anos 70 havia os “roqueiros” - pessoas que se sentiam especiais por terem um gosto musical diferenciado - que eram tão unidos e prestativos uns com os outros que pareciam fazer parte de uma irmandade. O roqueiro era o cara que curtia o rock e o rock, apesar de possuir várias vertentes, era um estilo bem definido na cabeça de seus admiradores. Quem costumava ouvir Beatles e Creedence no final dos anos 60, começou a também ouvir coisas novas como: Jimmy Hendrix, Santana, Pink Floyd, Yes, The Who e tudo mais que começava a surgir, sem fazer distinção ou estabelecer preconceitos contra essa ou aquela peculiaridade do rock. Progressivo, Pesado, Latino, Pop... O importante era ser rock. Ainda nos primeiros anos da década começaram a surgir bandas com uma sonoridade mais pesada. The Sweet, Deep Purple, Led Zeppelin e Black Sabbath foram os precursores do que viria a ser o Heavy Metal. Até aí tava tudo bem, o Heavy era mais uma das vertentes do rock que, assim como as demais, também tinha seus admiradores. Mas, não demorou muito pra que o Heavy se tornasse absoluto e independente. O surgimento de bandas como: AC/DC, U.F.O, Judas Priest, Saxon e Motorhead tornaram o Heavy bastante popular em todo o mundo. Veio então a década de oitenta, estávamos vivendo um ótimo momento. Em 85 tivemos o Rock’n Rio I, com Iron Maiden, Scorpions, Queen, Ac/Dc e outros, foi um momento de mudanças importantes. Naquela oportunidade já se podia observar uma clara divisão entre os amantes do rock, que trouxe de quebra os radicalismos. Alguns “radicais” que foram pra assistir ao Maiden e Ozzy, considerados pesados naquela época, ficavam sacaneando e torciam o rabo pro Queen, WhiteSnake e outros monstros do rock que vieram naquele festival. O surgimento de bandas com um Heavy diferenciado, por isso receberam ou deram-se rótulos mais específicos, acelerou o processo de segmentação do até então único e absoluto Heavy Metal. O que poderia ter sido uma evolução – ou involução para muitos - foi motivo de “racha” entre os fãs do Metal. Nascia aí as várias faces do Metal: Thrash, Death, Power, Speed, Black, White... Shit (deveria ter esse também). Nada de errado se os caras respeitassem a individualidade e as preferências uns dos outros. O que se viu a partir daí foi uma ridícula guerra de egos e uma intolerância descontrolada que fizeram com que uns passassem a recriminar os outros em defesa de suas verdades pessoais e absolutas. Se tudo caminhasse natural e evolutivamente do jeito que vinha acontecendo - da mesma forma que o Rock’n Roll abriu passagem pro Heavy Metal - era de se esperar que algo de novo surgisse naturalmente como mais uma herança do velho rock. Mas, ao invés disso, o que se viu foi o rompimento das relações “genealógicas” entre os netos e o avô, com isso ficou evidente no final dos 80 o progressivo enfraquecimento do movimento metálico no Brasil. Algumas das bandas que alimentaram essa discórdia – provavelmente sem ter idéia disso e do estrago que fizeram no nosso movimento - já nem existem mais, ou se existem, devem estar tocando pra uma minoria restrita de radicais, coincidência ou não nenhuma delas esteve no topo entre melhores em nenhum momento da história. O que me tranqüiliza é o fato de que nos dias atuais parece-me que o radicalismo está démodé, já existe mais respeito e as tribos conseguem conviver em harmonia. Espero que eu esteja certo.

TGZ: Agora com essa grandiosa notícia da volta da banda, mesmo com as ocupações cotidianas (Você, Roosevelt, trabalhando no Pará, Paulo Gui em Brasília, André Chamon e Leonardo Renda no Rio de Janeiro), como estão os planos de composições, gravações, shows, divulgação, enfim...

Roosevelt:
Atualmente todos temos nossos compromissos profissionais e familiares bem definidos, não temos como abrir mão deles. O que pretendemos fazer é um planejamento adequado pra que possamos fazer shows fora de nossas cidades sem que isso interfira nos nossos compromissos já assumidos. Vamos agendar os shows somente aos fins de semana e feriados. Certamente não nos restará outra alternativa de viagem que não seja via aérea, onde cada um sairá da cidade onde mora e após o evento retornará pra lá. Só vejo essa saída no momento, futuramente pode ser que mude alguma coisa. Estamos à procura de uma empresa de assessoria pra resolver a parte da agenda de shows e tudo que se refere a isso, pois não temos tempo pra fazer esse trabalho pessoalmente. Pretendemos utilizar, também, uma assessoria de imprensa para divulgação de nossos produtos que deverão ser comercializados através do site da banda. Vamos fazer tudo com muito planejamento e paciência pra que a gente possa se divertir sem dor-de-cabeça.

TGZ: E a sonoridade virá na linha mais rápida do 1º disco ou mais cadenciada como nos outros 2 álbuns, ou numa fusão dessas tradições para a continuidade do feeling a transmitir?

Roosevelt:
As composições rápidas e pesadas foram o diferencial que projetou a banda para o Brasil – pioneiros do Heavy Metal - e mais recentemente para o mundo – pioneiros do Thrash Metal. Sempre fizemos questão de incluir nos discos o que costumamos chamar de músicas no tradicional estilo “Stress”, não só por que os fãs esperam por isso, mas, porque são a nossa especialidade e são de nossa predileção. Para um próximo trabalho certamente músicas nessa linha não faltarão. As músicas não estão prontas ainda, tudo vai começar a se definir quando nos reunirmos em maio. Já tenho algumas idéias em andamento e delas posso adiantar que contém todos os ingredientes de um bom Heavy Metal: Velocidade nos momentos certos, melodia marcante, peso e feeling na (over) dose necessária. Logicamente que hoje temos mais informações e provavelmente algo de novo será acrescentado à sonoridade inicial, mas, tomaremos o cuidado de não “inventar” muito pra não descaracterizar ou “afrescalhar” nosso som. Continuaremos com a premissa que desde o início foi estabelecida de comum acordo entre os nós da banda: “Tocaremos o som que gostaríamos de ouvir”, esperamos que a galera também goste.

TGZ: Legal! É muito bom saber que não vão adicionar elementos modernosos para não descaracterizar o som, pois sabes que todos esperam pelo Stress da forma mais elétrica possível. Você quer acrescentar algo que, por ventura, não lhe foi perguntado?

Roosevelt:
Viemos de uma cidade sem nenhuma tradição no Rock, distante de todos os ditos centros culturais do país onde muitos desinformados acreditam que ainda vivemos em palhoças cercadas por uma imensa floresta nativa na qual habitam animais perigosos e outros já domesticados passeiam dentro de casa e pelas ruas dos nossos vilarejos. Mas, quem visita Belém e conhece sua gente se surpreende. Temos toda a tecnologia e o desenvolvimento necessários a uma grande capital do país com a vantagem de sermos um povo gentil, alegre, hospitaleiro e incrivelmente talentoso para as artes, especialmente para a música – alguns dos melhores baixistas do Brasil são de Belém -. Ainda podemos nos divertir de segunda a segunda, amanhecendo nas ruas e bares – todos com música ao vivo – sem que uma bala perdida nos encontre. De quebra temos um repertório de lindas garotas de todos os tipos que lotam as casas de shows e bares para verem as centenas de bandas de rock que fazem de Belém a capital do rock no Brasil. Estão surpresos? Pois é, acho que já era hora dos produtores musicais darem uma “passadinha” pra conferir. Conheço muita banda local que dá de porrada na maioria dessas que a mídia “sulista” e a Jovem Pam tentam nos enfiar ouvido adentro.
Se ainda acham que estou exagerando, pensem um pouco e voltem 30 anos no tempo pra relembrar que foi dessa selva que surgiu para o Brasil e para o mundo os “Indios” mais pesados Rock TUPINIQUIM. Desculpem por tocar na “ferida”, isso ainda deve incomodar muito colunista bairrista que se diz especializado em rock e que ainda se recusa a aceitar esse fato. Também é fato que existe vida roqueira na selva amazônica, já há muitos anos por sinal. Confiram! ( www.stress.mus.br )

TGZ: Beleza, amigo Roosevelt, para nós é um imenso prazer esse contato, nós damos o maior valor às bandas ‘das antigas’, também gostamos muito de Heavy Rock Metal cantado na nossa língua... Nessa emoção, saber da volta de bandas das antigas como a Stress e algumas outras, nos faz incondicionalmente apoiar espontânea e sinceramente, obrigado!

Roosevelt:
Nós do Stress e certamente todas as bandas do circuito alternativo agradecemos o heróico trabalho desenvolvido pelos zines especializados, eletrônicos e impressos, por levarem as informações corretas e imparciais aos milhões de admiradores do rock em toda sua plenitude e abrangência, dando-nos essa preciosa oportunidade de contar nossa história sob nosso próprio ponto de vista. Agradeço ao Elimar, ao Cezar, a toda a equipe do TGZ e a você que dedicou seu tempo à leitura dessa matéria.
Um “pesado” abraço ...
Roosevelt Bala ( Belém-Pará-Amazônia-Brasil )

 
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